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Saucer Country – Política e Alienígenas no novo título da Vertigo

em maio 28 | em HQs, Opinião | por | com 2 Comments

Alienígenas são figuras recorrentes no imaginário do entretenimento moderno. Desde o infame episódio da narração de Orson Wells para rádio do clássico “Guerra dos Mundos” de H.G. Wells, os invasores do espaço sideral possuem uma cadeira cativa na mente de todos nós. Embora seja um fenômeno associado a cultura norte-americana, a comunicação em massa e seus enlatados colaboraram para disseminar a figura do alienígena cinzento mundo afora.

Há quem ouse e argumente que a figura dos alienígenas na cultura pop é uma alegoria ao sentimento de xenofobia do homem ocidental, que com a dificuldade de compreender outras culturas, teme o contato e até mesmo o convívio com pessoas diferentes do seu meio. Isso explicaria – entre tantas outras coisas – a quantidade de avistamentos nos Estados Unidos, principalmente ao sul na fronteira com o México, para alguns política e alienígenas vão além das teorias da conspiração.

Essa linha de raciocínio é a premissa de “Saucer Country”, a nova revista em quadrinhos da Vertigo, o respeitado selo da DC Comics orientado ao público que busca histórias mais adultas e com um tom mais intelectualizado. A HQ é o resultado da parceria do escritor Paul Cornell que além de trabalhar na DC Comics já faz um tempo, é famoso por suas colaborações no roteiro do seriado “Doctor Who” e do desenhista Ryan Kelly, que assinou o traço em títulos em algumas edições de publicações recentes da Vertigo, como “DMZ” e “Northlanders”, ambas publicadas aqui no Brasil pela Panini Comics.

A série conta a história de Arcádia Álvaro, governadora do estado do Novo México e candidata a presidência dos Estados Unido. Na madrugada do dia que em que lançaria sua candidatura, ela e seu ex-marido alcoólatra Michael Smith ao retornar de uma festa são engolidos por uma luz misteriosa e acordam horas depois, já de manhã, dentro do carro. A história então se ramifica em três pontos de vista, enquanto a experiência bizarra de alguma forma motivou Arcádia a concorrer a presidência, Michael Smith passa por um severo estresse pós-traumático que intensifica sua dependência química, em paralelo a esses eventos, o leitor também acompanha o drama do Professor Kidd, um folclorista de Havard delusional que aparentemente é guiado por uma inteligência misteriosa para contatar Arcádia Álvaro.

Ao longo das edições fica claro que alguma coisa aconteceu, os protagonistas da trama sofrem de insônia, pesadelos lisérgicos, sangramentos nos orifícios do corpo e até mesmo traumas reprimidos, a sensação de uma força ou organização maior que conspira e observa os movimentos de cada um deles é constante na trama. Embora elementos do folclore relacionado aos alienígenas estejam presentes, é interessante ver como eles surgem de forma sutil no roteiro, nem sempre evidenciando e até mesmo implicando com o leitor, transmitindo com certo grau de sucesso o clima de paranoia e insegurança que a trama pretende construir.

Outro ponto forte na trama é como Paul Cornell trabalha bem as mudanças nas políticas étnicas e socioeconômicas que a administração Obama causou nos Estados Unidos. Arcádia Álvaro é mulher e latina, filha de imigrantes mexicanos, divorciada e filiada ao partido democrata, o tipo de figura bastante impopular para os setores mais conservadores do eleitorado americano. Arcádia é inspirada em outras duas personalidades políticas do mundo real, a primeira é Susan Martinez, a atual governadora do estado do Novo México, a outra personalidade é John Symington, ex-governador do Arizona.

John Fife Symington III foi uma das testemunhas de um fenômeno que ficou conhecido como “Luzes de Phoenix”, quando estranhas luzes surgiram nos céus dos estados de Arizona e Nevada em 1997. Na época, diversas pessoas relataram avistar formações geométricas luminosas cruzando o espaço aéreo da região, inclusive grandes centros urbanos. Symington quando entrevistado anos depois sobre o assunto, declarou o que viu como “sobrenatural”.

É preciso perceber que o conceito de “alienígena” é relativo: sempre focado em questões étnicas, culturais e sociais, os protagonistas de “Saucer Country” refletem bem isso: filhos de imigrantes, problemas psicológicos ou de dependência química. Este – e diversos outros fatores – acabam marginalizando o ser humano e em vários casos, relegando o mesmo ao ostracismo. Todos eles combatem não apenas seus próprios medos e traumas, mas também um lugar de destaque na sociedade americana, uma das mais xenófobas e reservadas do ocidente.

A Vertigo reafirma sua postura como um selo provocante e instigador ao lançar “Saucer Country”, uma HQ repleta de comentário social e crítica em pleno ano de eleição, situando a trama justamente no Sudoeste Americano, em uma das regiões mais conservadoras dos Estados Unidos. Atualmente “Saucer Country” está em sua terceira edição e tem encontrado boa receptividade do público, em especial da crítica especializada, que chamou a série de um misto entre “Arquivo X” e “The West Wing”, fica aqui a sugestão para um futuro lançamento da Panini Comics.

Para quem se interessar pelo título, a série está disponível a venda em cópias digitais no app Comixology, para iOS e Android. Quem estiver afim de importar uma coletânea deve aguardar com um pouco mais de paciência, já que não existe previsão de lançamento nesse formato.

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