Samarago x Crumb – As novas visões do Gênesis

em julho 25 | em Uncategorized | por | com 4 Comments

Por Raphael Fernandes

Com as crescentes discussões entre criacionistas e darwinistas, dois livros se tornaram obrigatórios para quem quer ficar por dentro do assunto: “A Origem das Espécies de Charles Darwin” e o “Gênesis” da “Bíblia”. Este último está tão em alta que dois dos maiores expoentes culturais do século 20 decidiram produzir obras baseadas no texto bíblico.

Caim – José Saramago

Falecido no início de 2010, o português José Saramago (1922-2010) despediu-se do mundo lançando uma de suas obras mais subversivas e críticas. “Caim” (Companhia das Letras), como o próprio nome indica, conta a história do primogênito de Adão e Eva que é amaldiçoado por Deus após matar seu irmão caçula Abel.

A narrativa criativa de Saramago transforma o assassino primordial em uma pessoa inteligente, sensata, humana, honesta e rebelde. Por outro lado, Deus é ciumento, bipolar, distraído, mentiroso e, acima de tudo, lembra um garoto mimado. As características de ambos se desenvolvem durante as peregrinações de Caim pelo tempo e espaço do Gênesis.

Em um dos momentos mais marcantes, Caim questiona o que Deus fez com a população de Sodoma. Seu argumento aponta várias falhas de julgamento, pois lá haviam muitas pessoas inocentes. Afinal, a cidade devia ter dezenas de crianças que ainda não haviam sido maculadas pelo comportamento pecaminoso dos adultos.

O texto é tão forte que o leitor se vê torcendo para que o herói Caim tenha uma oportunidade de tirar satisfações com Deus, uma espécie de tirano confuso e onipotente. A distração divina cega Deus para várias das mazelas humanas, muitas delas causadas por ele mesmo.

O estilo único de Saramago é outro atrativo para os amantes da literatura portuguesa. Seus grandes parágrafos lembram a narrativa alucinada e impulsiva do clássico “On the Road” de Jack Kerouac. No entanto, é com o rompimento das convenções tradicionais da língua portuguesa que Saramago criou sua assinatura.

Saramago escreveu outra grande obra relacionada ao tema Bíblico: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, que também merece uma leitura atenciosa.

Gênesis – Robert Crumb


Em 2009, Robert Crumb (1943-) publicou “Gênesis” (Conrad Editora), sua tão esperada adaptação em quadrinhos do primeiro livro da “Bíblia”. Conhecido por ser um dos papas da contracultura e por seu trabalho não encontrar limites morais para criticar a vida e a sociedade. Por conta disso, todos esperavam que essa seria uma adaptação herege, recheada de cenas de sexo explícito (tema freqüente na “Bíblia”) e iria escancarar as bases das maiores religiões do ocidente.

Porém, a rebeldia de Crumb estava muito além do que esperavam seus críticos. O lançamento da obra surpreendeu a todos que esperavam encontrar o velho Crumb de sempre, pois “Gênesis” é uma das mais fiéis adaptações de um texto bíblico em quadrinhos. Essa atitude dividiu opiniões, parte dos leitores considerou a obra fraca e desnecessária, pois simplesmente reproduziu tudo o que já estava escrito na “Bíblia”. Muitos até praguejaram dizendo que Crumb estava velho e havia perdido seu senso crítico.

Outros leitores mais atentos perceberam que o autor queria criticar o livro da melhor forma possível, expondo todos seus detalhes indiscriminadamente para que as pessoas tirassem suas próprias conclusões. Possibilitando até que os fiéis mais fanáticos pudessem perceber as interpretações duvidosas de seus líderes.

O que ninguém pode negar é que a qualidade técnica e artística de Crumb alcançou seu ápice em “Gênesis”. A caracterização de cada personagem e uma obsessão sem limites pelos detalhes faz do álbum uma lição de virtuosismo artístico que amplia a capacidade de compreensão do texto original. Também é importante ressaltar que o desenvolvimento da narrativa foi aliado a amplos estudos as diversas versões da obra e consulta a vários especialistas.

Publicada originalmente na revista Sexto Sentido.

PROMOÇÃO – Veja como concorrer ao “Gênesis” do Crumb autografado!

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  • http://dersinhodersinho.blogspot.com/ Anderson

    Gostei da dica dos livros, sou cristão mas procuro conhecer outros pontos de vista, acho o debate uma coisa saudável.Por outro lado notei um anacronismo no livro de Saramago, Sodoma e Gomorra é do período pós dilúvio, Adão e essa primeira geração já havia morrido à muito tempo, a geração ressaltada era de Abrão.Um abraço, seu blog é muito interessante!

    • http://www.contraversao.com Raphael Fernandes

      Muito legal sua participação, Anderson. No entanto, você está enganado. O livro mostra Caim como um viajante do tempo que visita vários momentos do Velho Testamento.

      Não se prenda às resenhas. Vale muito a pena ler essas duas obras!

      Abraços!

  • Gabi

    Vale lembrar que Saramago era ateu, o que faz com que sua visão seja ainda mais interessante de se analisar =).

  • http://www.facebook.com/marciosno Márcio Sno

    Curiosamente e ironicamente li na sequência “Caim” e “Gênesis”. Foi sem querer. Juro. Mas veio muito a calhar ler essas duas obras de arte desta forma.
    Assim como os autores citados, também tenho minhas descrenças a respeitos dos “escritos sagrados”. Imagine como me deliciei com tudo isso!
    Crumb ficou 4 anos (se não me engano) para produzir esse material (entre pesquisas e ilustrações) e, como disse Raphael Fernandes no texto, ele realmente alcançou o seu ápice nessa obra. Já Saramago, como se não bastasse o estardalhaço que causou com “O evangelho segundo Jesus Cristo”, se despediu desse mundo com o tão mais polêmico “Caim”, que, entre as inteligentes linhas desse texto audacioso, chega ao ponto de chamar o Criador de filho da puta com todas as letras. Viva a subversão!
    Ambos autores, independente se descreveram suas histórias da forma correta ou não, têm uma qualidade que ninguém pode tirar: eles não se conformaram apenas com uma versão da história.
    Para quem é inquieto e que também não se contenta com a versão perpetualizada pela Bíblia, recomendo a leitura desses dois clássicos lançamentos. Mas não faça a leitura sem querer, como eu fiz. Faça de propósito!

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