Nota de repúdio ao blog “Caixa de Gibis” e seu post “A derrota dos super-heróis – Ou porque não precisamos de heróis gays”
Esse mês, a Marvel Comics anunciou o casamento de um dos seus personagens clássicos. Este tipo de evento costuma ser em muito celebrado, afinal, não é sempre que podemos acompanhar nossos personagens em um momento de conquista e felicidade como esse. Porém, a coisa não parou por aqui, este evento seria – em tese – o primeiro casamento gay a ser ilustrado nas páginas dos quadrinhos de super-heróis.
Como era de se esperar, a notícia repercutiu e inflamou algumas opiniões. Não pude deixar de observar o artigo “A derrota dos super-heróis – Ou porque não precisamos de heróis gays” no blog “Caixa de Gibis”, da autoria de Mauro Tavares. (Nota do editor: Não vamos dar um link pro cara, pois não queremos ser vinculados a ele de jeito nenhum.)
Tavares é, quando muito, um peixe pequeno e irritante em meio a um mar de opiniões fortes e inteligentes, mas sua posição política reflete um raciocínio maldoso, digno de uma retórica medieval, fascista e homofóbica. Em seu texto, a nostalgia é sinônimo de resgate de uma moral caduca, que teima em persistir em um mundo onde não existe razão para ela.
Considero este post uma resposta a alguns pensamentos dúbios e (de)articulados que visam persuadir – e confundir – o leitor sobre a questão. Ao longo do texto, faço minha a análise do que disse Tavares.
Em “Qual foi a reação da mídia”, o autor menospreza a representação dos homossexuais nos meios de entretenimento reafirmando a condição dos mesmos como “minoria”. Por isso, não devem ser retratados em histórias de super-heróis, gênero que de acordo com ele é descompromissado com a realidade.
De forma maliciosa, o autor argumenta que “‘comparar gays a negros é uma ofensa ao movimento dos direitos civis americanos e a Martin Luther King, que era cristão, e mesmo uma ofensa a muitos negros, que são cristãos“. Vale lembrar que foi durante a fase de Dennis O’Neil na genial HQ “Lanterna Verde/Arqueiro Verde” que os quadrinhos terminaram com a cumplicidade do silêncio e se desenvolveram em mecanismos de denúncia e integração através de suas histórias. Retratando principalmente a condição precária de gays, indígenas, usuários de drogas e mulheres na malha social norte-americana.
Com o desenvolvimento do artigo, o autor apresenta dificuldade em aplicar uma justificativa racional para o porque o gênero super-heróico nos quadrinhos não precisar de representantes homossexuais. Tavares alega que o zeitgeist de épocas como a Era de Ouro na 2ª Guerra Mundial foi um “processo espontâneo” ao invés de uma jogada de “marketing primitiva”, no qual ele classifica a postura da Marvel Comics.
Como era de se esperar em “Quais os motivos dessa apelação?“, o autor acusa o mítico “declínio de vendas” (que estranhamente, em outros artigos, ele dissertou sobre o contrário), acusando a desconstrução obcecada do gênero super-heróico como o principal responsável. Para ele, os super-heróis de hoje não persistem em nosso imaginário como “figuras idealizadas”.
A desconstrução dos super-heróis serviu, antes de mais nada, para humanizá-los perante duas gerações de leitores, atribuir características empáticas para pessoas que – supostamente – representam o ideal moral de nossa sociedade. Era necessário aproximá-los da realidade dos leitores e do cotidiano, desconstruir para discutir a humanidade de suas personagens, nesse caso, foi uma atitude saudável.
De forma capciosa, no texto é dito que para reverter as vendas em declínio, os autores buscam revitalizar personagens de “quinta categoria” seja com reconstruções ou histórias dotadas de caráter polêmico, se referindo obviamente ao casamento de Estrela Polar e Kyle. Para alguém que se diz versado nas fundações da indústria de quadrinhos, ele ignora o contexto do super-herói maliciosamente.
Há uma década, a editora tem explorado a sexualidade do personagem nas páginas de X-Men. Vale lembrar que em 2002, embora ainda adotasse uma postura relutante, Estrela Polar foi um dos primeiros personagens a “sair do armário”.
Ao longo dos anos, “X-Men” se desenvolveu como uma revista que tem alegorias sobre o debate de minorias. Os mutantes que protagonizam a revista são – em tese – uma minoria e até ameaças de extinção já sofreram. Sendo assim, a escolha da Marvel Comics de casar um mutante gay é ainda mais pertinente.
Claro que em “quais são as consequências?” o autor discute os efeitos e influências supostamente nocivos da mais nova “jogada de marketing” da Marvel Comics. Mesmo se anteriormente tivesse menosprezado tanto a repercussão do evento como o significado dele.
A principal alegação é a influência deste tipo material sob o público infantil. Demagogo e novamente ignorando o demográfico e a faixa etária dos leitores de revistas em quadrinhos, Tavares aplica a velha retórica de que o público infantil é vulnerável e influenciável a modelos de comportamento.
Estranho perceber que Mauro Tavares, sendo um homem de posição política “conservadora” esqueceu do papel da família na educação infantil. Afinal, se você não quer que seu filho, tenha acesso a um tipo de material, porque a criança estaria vulnerável? Nessas horas é bom recordar o incisivo humor do norte-americano Louis CK sobre a questão.
O autor, obviamente sem propriedade intelectual para discutir psicopedagogia, adota uma postura pseudocientífica para explicar os supostos “males” da homossexualidade na formação da identidade social de um adolescente. Ele afirma que ser “influenciado” por um bem cultural define, necessariamente, um problema de caráter e não uma necessidade empática.
Existe um parágrafo que merece a atenção, que contradiz o propósito do próprio texto, quando o autor articula que ” Super-heróis não são representantes de minorias políticas ou classes, eles são representações da superação individual em uma sociedade livre em que o homem é capaz de lutar pela liberdade, pelo bem e pela felicidade.” Vale o questionamento de onde veio isto, afinal a própria questão da “superação individual” não condiz com a noção de “histórias descompromissadas com a realidade” retratando indivíduos com super poderes.
Para o leitor, fica aqui meu questionamento: não seria a representação de minorias e classes sociais desfavorecidas uma luta movida por ideais como liberdade, bondade e felicidade? Uma superação não apenas individual, mas também no âmbito coletivo e público?
Claro que o argumento do autor apresenta sinais graves de decadência, caindo na proposição infantil que nós não precisamos gostar de personagens que sejam etnicamente, socialmente ou sexualmente parecidos conosco. Afinal, como ele mesmo diz: ” E o montão de gente que adora Batman sem ser um bilionário enlouquecido pela morte dos pais?” entre tantas outras bizarrices.
É interessante perceber o que foi ignorado nessa questão: se a DC inventou um panteão quase olimpiano de personalidades, foi em nomes como Stan Lee e Jack Kirby que criou-se a noção de “heróis com problemas”. Muito antes do fenômeno da desconstrução dos super-heróis.
Usaremos como exemplo o Peter Parker, que para todos os efeitos leva a vida de um adolescente comum. Mora com a tia e intercala sua vida de vigilante com problemas como estudo, desemprego e até mesmo sua inaptidão para relacionar-se com garotas (e aparentemente, a heteronormatividade não é um tabu para ninguém). Não é toa que a construção desse e tantos outros personagens recorriam a essa característica, afinal, compartilhar problemas significa superá-los.
O show de horror e malícia continua em ” Por que tudo isso é uma farsa?” alegando que o casamento gay é o último de uma série de manobras que o autor considera “apelativas” e diminui a condição do quadrinho como arte (e forma de mídia, como cinema, música, literatura e etc). Tornando-o um produto de baixa qualidade.
Não levando em conta que o autor afirmou justamente o contrário em ocasiões passadas, alegando que “quadrinhos são apenas um meio de entretenimento”. O propósito da arte não se reduz a uma suposta erudição, mas sim em seu caráter social e principalmente denunciatório. A afirmação de Mauro Tavares seria o mesmo que condenar “Guernica” de Pablo Picasso ou ” Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808″ de Francisco Goya por serem obras de conteúdo explícito e propósito social.
Ele ainda argumenta a questão do conservadorismo como postura política e moral, alegando que a representação de gays em meios de comunicação e narrativas de entretenimento não é necessariamente um reflexo de evolução cívica. Nas próprias palavras do autor: “Muitas grandes sociedades entraram em decadência quando seus valores primais foram desprezados e substituídos por novos. O conservadorismo não visa impedir o avanço das mudanças, mas selecionar quais mudanças devem ser feitas e como devemos executá-las. Muitas mudanças não são positivas e não devemos propagandeá-las em gibis“.
Ou seja, é uma postura excludente e até mesmo de caráter elitista. Que valores ditos como “primais” (sic) são esses? E quem deve capitanear tais mudanças? Mauro Tavares e uma dúzia de pessoas? Como isso é feito? Quem é responsável por essa tarefa? Em uma sociedade democrática nunca devemos ignorar valores como o debate e a liberdade de expressão, principal garantia que até mesmo afirmações atrozes como a dele possam ser publicadas e discutidas abertamente.
E sim, Mauro Tavares, como faz falta um Jack Kirby! O nova-iorquino veterano de guerra que concebeu as histórias em quadrinhos como conhecemos hoje em dia, aquela arte marginal, célere e colorida, uma verdadeira manifestação artística contra a grandeza enfadonha dos ideais nazifascistas que você tanto preza em segredo.
Em sua conclusão, você tenta articular que os super-heróis são símbolos de uma política conservadora em que eles “…atuam pra manter os valores da sociedade atual, não para transformá-los. Eles não querem destruir ou modificar ou se adaptar as mudanças no “sistema”, eles fazem parte da manutenção dele“. Embora você não tenha como comprovar a veracidade desse informação, quase um século de histórias afirmam justamente o contrário.
Heróis representam sim ideais, eles são forças motrizes com a capacidade de alertar as suas audiências sobre a morosidade daqueles que julgam estar nos alicerces da sociedade. Super-heróis nunca tiveram seu conceito enraizado na força conservadora, mas sim o contrário. A superação individual é uma negação do conformismo e cumplicidade que o seu tipo de sociedade idealizada prega.


























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