paprika03-1024x563

Japanóia #8 – Paprika, realidade e sonhos se encontram na obra de Satoshi Kon

em junho 22 | em Animes | por | com 1 Comment

Satoshi Kon foi, ao lado de nomes como Hideaki Anno e Hayao Miyazaki, um dos maiores gênios da animação japonesa. Em seu portfólio constam obras de peso como “Perfect Blue”, “Tokyo Godfathers”, “Paranoia Agent” e “Paprika”, sendo este último considerado por muitos a magnus opus do conceituado diretor de cinema. Adaptado de um tímido romance lançado em 1993, “Paprika” é considerado um dos melhores longas animados já produzidos.

Em um futuro não muito distante um aparelho chamado “DC Mini” revoluciona a psicoterapia, possibilitando a exploração e registro dos sonhos e subconscientes das pessoas. Uma das precursoras desse tratamento é a Doutora Atsuko Chiba que através de seu alter-ego Paprika passa a tratar distúrbios de seus pacientes.  Quando o DC Mini é roubado e tem seu uso pervertido para infectar a mente das pessoas, Paprika precisa correr contra o tempo para impedir que realidade e sonho entrem em conflito.

O potencial e os desdobramentos éticos do DC Mini são constantemente discutidos no filme. Seriam os sonhos a última fronteira a ser desbravada pela ciência? Não seria invasivo psicólogos e cientistas adentrarem o subconsciente das pessoas? Seria este o fim do mistério por trás dos desígnios da imaginação humana? É interessante ver como Paprika explora a relação entre sonhos e os meios de comunicação,  principalmente o papel central que o cinema e a internet exercem como um grande repositório de ambições, ideias e memórias.

Tema recorrente nas produções de Satoshi Kon, “Paprika” explora o limite entre o real e o sonho. No decorrer da trama aos poucos o tangível e o imaginário se fundem em uma coisa só, culminando em situações que beiram o surreal.  Não é a toa que Paprika seja uma obra sobre os limites entre o real e o imaginário, a cultura pop japonesa reflete essa dualidade. Em meio ao cenário caótico e colorido da trama, a protagonista interage em diversos níveis com várias referências a cultura pop. Sem adotar maniqueísmos, a animação explora a noção da dissolução da realidade. Onde gerações de japoneses recorrem a mangás, animes e dramas televisionados como mecanismo de escape para suas vidas tediosas.

Paprika aborda justamente a capacidade anárquica e sedutora dos sonhos em vidas que são, muitas vezes, regradas pelo marasmo. O clima caótico do filme é constantemente lembrado no desfile da “Parada do Sonhos”, uma procissão de objetos inanimados, que vão de eletrodomésticos a símbolos religiosos, que acompanham animais (imaginários ou não) que marcham ao som de uma fanfarra, uma alegoria clara ao inconsciente coletivo e onde diversos sonhares se cruzam.

Além de influências claras na literatura da psicanálise, principalmente em Freud e Jung, a maneira que Paprika flerta com a dissolução entre o real e o imaginário pode ser interpretada através de um viés místico. Culturas como a aborígine acreditavam que o mundo era separado em dois tempos paralelos, um reservado para as atividades cotidianas e outro pro sonhar e espiritual. Diversas alegorias religiosas no longa, como imagens de Buda, Virgem Maria e criaturas do folclore xintoísta reforçam esse aspecto.

Muitas pessoas acusam a animação de ser desnecessariamente complexa, ou até mesmo muito confusa. Confusão essa que se manifesta não apenas nos detalhes na trama, mas até mesmo na riqueza visual da obra e dos diversos objetos que preenchem cada frame da animação. Ainda assim Paprika é uma produção que convida para ser reassistida, apresentado elementos que passaram batidos na última vez que o espectador viu a obra.

Um dos pontos altos da produção é sua equipe de dublagem, que participou de outras animações de peso como Neon Genesis Evangelion, Mobile Suit Gundam e Ghost In The Shell. No elenco estão dubladores famosos como Megumi Hayashibara, o veterano Toru Furuya e Koichi Yamadera. A trilha sonora fica por conta de Susumu Hirasawa e faz jus ao clima onírico do longa animado. Para quem não conhece, Hirasawa é uma espécie de compositor com inspirações inusitadas e muitas vezes de teor místico, uma espécie de guru pop no meio musical japonês, escolha perfeita pra ambientação musical do anime.

Cinéfilos ocidentais podem comparar Paprika à uma série de produções, como trechos do cult Waking Life (de Richard Linklater) que exploram a natureza do sonho lúcido. Também podemos citar  Inception, do badalado cineasta Christopher Nolan, que confessou em entrevista ao Excessif, um site de cinema francês, a influência do longa animado no desenvolvimento criativo do filme.

Paprika ganhou a escolha do público no Festival de Cinema de Montréal e um Leão de Ouro no Festival de Veneza, a Revista TIME nomeou Paprika uma das 25 animações de todos os tempos. No Brasil, Paprika dá continuidade ao status de prestígio que desfruta em diversas partes do mundo. Além de ser constantemente lembrado em festivais dedicados a animação japonesa, o longa costuma ser exibido em canais pagos de televisão, como o MAX Prime. Cópias em DVD e Blu-ray contendo áudio original e material extra foi lançada no Brasil pela Sony e pode ser encontrada em sites por até R$50,00.

Em Agosto de 2010, quatro anos após o lançamento de Paprika,  Satoshi Kon faleceu graças a um câncer pancreático em estado terminal, deixando em vida. Gosto de pensar que Satoshi Kon, como um profissional criativo,  de forma similar as suas obras, transcendeu o limite entre o real e o sonho. Deixando de herança para a humanidade uma das mais belas animações já produzidas pela sétima arte.

Pin It

Posts Relacionados

One Response to Japanóia #8 – Paprika, realidade e sonhos se encontram na obra de Satoshi Kon

  1. Lidia Zuin disse:

    Uma das partes que eu mais gosto de Caprica é quando ela se encontra com aquele policial na internet e fala sobre a relação entre a rede e os sonhos: 
    http://www.youtube.com/watch?v=HNWiPM2WWHY

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

« »

Contraudição

Scroll to top