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Japanóia #12 – Suicide Club – Modismos e suicídios no cult cabeça de Sion Sono

em agosto 13 | em Cinema, Opinião | por | com 3 Comments

Esse é um Japanóia especial. Após doze edições, pela primeira vez resolvemos ir além da realidade dos clássicos dos animes e mangás para explorar as entranhas nefastas do cinema alternativo japonês. E após cogitar muitos títulos, resolvi começar essa coluna por um dos filmes mais impressionantes e chocantes já exibido para as audiências ocidentais.

Em 24 de Maio, um grupo de cinquenta e quatro colegiais, em uma espécie de ritual ou ato combinado, cometeram suicídio se jogando na frente de um trem em movimento. Esse seria o primeiro de uma estranha onda de suicídios adolescentes que assombraria o Japão ao longo de uma semana. Embora seja um acontecimento completamente plausível, você pode respirar aliviado, essa é a premissa do cult  “Suicide Club”.

Lançado em 2002 e dirigido pelo escandaloso Sion Sono, “Suicide Club” é uma produção independente que explora as entranhas sombrias da cultura pop japonesa, falando sobre a força do modismo e a falta de perspectiva de uma geração de jovens japoneses. Após o incidente, a polícia de Tóquio designa o Detetive Kuroda (interpretado pelo veterano Ryo Ishibashi, que também participou de “Audition“) para investigar sobre os rumores na internet acerca da existência de um “clube do suicídio”. Conforme a contagem de corpos aumenta por todo o país, Kuroda e seus colegas de trabalho descobrem estar lidando com algo de proporções inimagináveis.

Sob um olhar cheio de malícia, Sion Sono explora a influência da cultura pop no cotidiano dos japoneses introduzindo uma série de personagens misteriosos. Conhecido apenas como Genesis (interpretado pelo cantor Rolly Teranishi), o cantor de rock egocêntrico e instável assume a liderança do culto. Genesis é fortemente influenciado pela estética das bandas de visual kei (como Dir en Grey) que fizeram fama na década de noventa ao adotar vestuários e temáticas escandalosas. Em momentos apoteóticos que desafiam o bom gosto, o perturbado personagem canta baladas de amor ao som de estupros e animais sendo esmagados por tacos de beisebol.  Em um momento de grandeza o sádico antagonista grita para comparsas e vítimas atônitas: “eu sou o Charles Manson da Era da Informação!”

Em paralelo aos eventos da trama estão as meninas do grupo de idols pré-adolescente “Dessert“. Um espectador menos informado não saberia dizer, mas elas são uma referência clara a grupos como o Morning Musume, que há décadas fazem sucesso no país. Crianças e pré-adolescentes que são escolhidos desde cedo em audições para compor supergrupos de forma similar as boy/girl bands ocidentais. Esses grupos ficaram famosos por lançar singles com canções motivacionais, voltadas para todos os demográficos do país. É importante lembrar que muitas integrantes destes grupos tem suas vidas particulares arruinadas pela mídia, contratos e fãs obsessivos.

Sion Sono argumenta de uma forma que vilifica a influência da cultura pop em um país tão dependente da mesma. Dando vida a teorias da conspiração e psicopatas em um mundo repleto de pessoas jovens e sugestionáveis. O problema é que o roteiro não desenvolve muito esse ângulo do argumento, preferindo focar nas relações das personagens em meio ao pânico dos suicídios coletivos. De certa forma, isso transforma a questão humana, pois é preciso uma contagiante onda de suicídios brutais e – aparentemente – superficiais para que o Detetive Kuroda e o resto do elenco se humanizem.

Uma das críticas recorrentes do filme é seu roteiro abstrato e difícil de acompanhar. Existe uma razão para isso, antes de iniciar sua carreira como cineasta, Sion Sono fora um poeta. Com influências artísticas marginais, o diretor independente sempre buscou explorar as vulnerabilidades que existem por trás de um Japão perfeccionista e otimista. Seu intento lembra muito os ataques artísticos promovidos pelos mais diversos movimentos de vanguarda e seus filmes costumam ser subjetivos e cheios de caráter simbólico. Em sua carreira, Sion Sono já liderou saraus a céu aberto e projetos de intervenção artística.

Embora o filme levante profundas reflexões sobre a sociedade japonesa, “Suicide Club” não nega suas raízes no terror trash. O filme usa quase nenhum efeito de computação gráfica, o sangue e as amputações ficam por conta dos bons e velhos bonecos e bolsas de sangue. Isso dá um certo “ar” para um filme de produção independente, sem contar que ameniza um pouco a proposta série do roteiro. Esperem por cenas bem sangrentas.

Comentários infames a parte, o filme tem um extenso culto de seguidores no ocidente. No cenário da música eletrônica alternativa, a banda de Eletronic Body Music “Combichrist” incluiu samples do diálogo do filme na faixa “Are you connected?  do CD “What the Fuck is Wrong With You People?”. No filme de suspense gore Hostel” (conhecido aqui no Brasil como “O Albergue”) o diretor Eli Roth realiza uma homenagem a famosa cena do suicídio no trem. “Suicide Club” atingiu um certo sucesso, alcançando status de cult. Isso fez com que a produção de Sion Sono lançasse uma continuação direta do filme, chamada “Noriko’s Dinner Table” (que eu ainda não vi) e a promessa de um ainda não intitulado terceiro filme. Também foi lançado uma história spin off em mangá.

Aqui no Brasil o filme é raramente exibido, sendo lembrando em amostras de cinema alternativo ou programações de canais pagos, para quem se interessa, o jeito é importar pela Amazon a cópia em DVD. “Suicide Club” é uma boa pedida para quem busca um equilíbrio entre um bom roteiro e cenas de gore. Um filme inquietante e que desafia o pensamento, rendendo o espectador impotente em meio as reviravoltas da trama. Indicado para aqueles que procuram pelo diferente e absurdo na próxima sessão pipoca.

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  • http://www.facebook.com/mauromnetto Mauro Massucatti Netto

    Pô Roberto!

    Eu deveria saber isso antes de ter visto o filme! Com certeza teria um olhar diferente sobre o mesmo depois de algumas informações que obtive aqui! 

    Valeu! Agora tenho que ver novamente! Rsrsr

  • http://www.facebook.com/mauromnetto Mauro Massucatti Netto

    Depois de Sasha Grey virou moda contratar atrizes pornô?

    Bom texto Roberto, mais uma vez, meus parabéns!

  • Pingback: Otakismo – Seis títulos imperdíveis do cinema japonês contemporâneo | ChuNan! - Chuva de Nanquim()

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