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Japanóia #11 – Paradise Kiss – glamour e drama no descolado mangá de Ai Yazawa

em agosto 2 | em Animes, HQs | por | com 5 Comments

Hayasaka Yukari é uma típica colegial japonesa de 17 anos. Em tempo de vestibular, a protagonista leva uma tediosa rotina intercalando seu último ano de colégio com as aulas do cursinho preparatório. Em um desses dias, Yukari encontra um garoto punk no meio da rua, que logo a avisa que hoje é “seu dia de sorte”. Assustada e temendo o pior, Yukari corre do punk apenas para esbarrar em uma mulher alta e estranhamente vestida. Não aguentando a pressão do episódio bizarro, a pobre colegial desmaia. Ao acordar, Yukari descobre estar em um pequeno ateliê mantido por um grupo de alunos da Yazawa Gauken, uma escola dedicada ao estudo da moda. Entre os alunos do grupo, além de Arashi, o punk e a estonteante Isabella (que na verdade é um travesti) se encontram Miwako, uma linda menina de cabelos rosas e o talentoso e egocêntrico George. A proposta do grupo é clara, eles querem utilizar Yukari como modelo em um evento da Yazawa Gouken, mesmo insistindo a protagonista oferece resistência e vai embora do recinto, deixando cair sua identidade de estudante. Isso faz com que George descubra mais sobre a moça, passando a flerta-la e instigar ela sobre as motivações do grupo. Yukari então, em um momento de rebeldia, aceita a proposta do grupo mesmo sabendo que isto teria repercussões sérias com sua família, professores e amigos de colégio.

Escrito e desenhado por Ai Yazawa, “Paradise Kiss” (ou “Parakiss” como os fãs gostam de chamar a obra) é um dos maiores sucessos da autora. Embora seja um fato pouco conhecido, “Paradise Kiss” é a continuação direta de “Gokinjo Monogatari”,  ainda não publicado oficialmente no ocidente. Em “Paradise Kiss”, Ai Yazawa tem a chance de explorar uma de suas maiores paixões: a moda.

Antes de o mangá ter seus capítulos compilados em formato “tankobon”, a série foi publicada originalmente na Zipper Magazine, uma revista de moda famosa no Japão. Yazawa é famosa por trabalhar o gênero josei nos mangás, com histórias voltadas para um demográfico feminino mais adulto. Apesar de seguir a tradição dos mangás shoujo, com situações românticas e dramáticas, o josei costuma partir de uma premissa mais realista de roteiro, inserindo suas personagens em situações cotidianas onde a leitora mais velha pode se identificar com mais facilidade.

Em 2005, o mangá ganhou uma adaptação para anime pelo estúdio Madhouse. O diretor da animação Osamu Kobayashi aproveitou a parceria com Yazawa para realizar uma série de mudanças na adaptação. Para respeitar o feeling fashionista  a produção contratou o fashion designer Atsuro Tayama, que dedicou seus esforços para manter o elenco “dentro da moda” e com a animação respeitando o figurino idealizado por Yazawa. O tom humorístico da obra original também foi amenizado, sendo que diversas cenas mais “cômicas” do mangá ficaram ausentes na adaptação.

Uma das coisas que me surpreendeu na animação foi o enfoque dado à trilha sonora. Embora fãs do j-pop possam reconhecer a voz da cantora Tommy February 6 com faixa “Lonely in Gorgeous” no tema de abertura, o que realmente rouba a cena é a inclusão da banda britânica Franz Ferdinand com “Do You Want To?” no encerramento, o que apenas reforça a proposta “descolada” de Paradise Kiss. Acredito inclusive que a presença de uma banda ocidental torna o mangá mais acessível para as audiências mais casuais.

Yazawa aproveita o elenco dos personagens para traçar uma história multifacetada. Embora o foco seja o flerte (e a expectativa de um romance) entre George e Yukari, diversas outras histórias tomam forma. A simpática Miwako precisa lidar com a volta de um amigo de infância e o crescente ciúme de Arashi. A travesti Isabella, embora resolvida e visivelmente madura na questão sexual, acompanha as reviravoltas do grupo com uma atenção praticamente maternal.  E a própria Yukari precisa resolver a crise na família gerada por sua decisão em se tornar modelo.

Em tempos onde a representação de homossexuais é amplamente debatida nas histórias em quadrinhos, “Paradise Kiss” é bem aberto e adulto nessa questão. Além da presença de Isabella e o desenvolvimento de todo um plot sobre o fato da personagem ser um travesti. Diversos personagens são homossexuais, inclusive o protagonista “George”, que se diz assumidamente bissexual.

Existe uma razão para “Paradise Kiss” ser um sucesso de público. Embora seja um drama que explore as relações afetivas do elenco, existe a questão da moda no fundo. Ai Yazawa se esforça para ilustrar a sensação de glamour e a existência de um mundo idílico que se esconde da rotina das pessoas comuns. Logo no início Yukari relembra o ateliê de George em uma das passagens mais bonitas que eu já li em um mangá: “Escondido em um labirinto de ruas. Para alcança-lo você deve descer as escadas até uma pequena porta. Doces cheiros e exóticos preenchem os cantos…como se alguém estivesse fazendo velas em uma loja de produtos chineses. Uma música atordoante pulsava e ecoava das paredes cor de rosa. Lá tinha um bar, uma mesa de sinuca e três máquinas de costura. Era como um esconderijo secreto, eles falavam que era o estúdio deles”.

É com este tipo de passagem forte, cheia de sinestesia e nostalgia que Yazawa abre sua obra. Na adaptação para anime, o diretor Kobayashi vai além para retratar a felicidade da protagonista. Quando Yukari passeia com seus colegas estilistas o mundo sofre uma transformação. As cores assumem tons mais lívidos e “figuras” lisérgicas de animas e insetos deslizam por muros e prédios.

No Brasil, o mangá de Paradise Kiss foi lançado pela editora Conrad em 2007. Em formato  13,4 x 20,2 e 176 páginas, similar ao tankobon original.  Mesmo com uma publicação irregular, os leitores puderem suspirar aliviados quando a série foi completada em maio de 2008, com o lançamento do 5º volume. Como as fãs da série gostam de afirmar, “Paradise Kiss” foi a primeira história josei a ser publicada no país. Extremamente raro de encontrar hoje em dia, mesmo em convenções e lojas especializadas, alguns de seus volumes costumam atingir preços exorbitantes.

Os fãs tiveram a chance de conferir outro trabalho da Ai Yazawa em 2008, quando a Editora JBC lançou “Nana”, outro aclamado sucesso da escritora (cujo nosso colaborador Aléssio Esteves escreveu uma ótima resenha para o Mob Ground). Em 2011, “Paradise Kiss” ganhou uma adaptação para cinema. Estrelado por uma série de atores e ídolos japoneses, com Keiko Kitagawa (que interpretou Sailor Mars no Tokusatsu de Sailor Moon) e Osamu Mukai nos papéis principais. Em 2009, Ai Yazawa interrompeu seus trabalhos por motivos de saúde. Desde então sua produção de mangás foi interrompida sem previsão de ser retomada. Fica aqui o meu voto (e os dos fãs) para que Yazawa tenha uma convalescência pacífica e volte logo ao trabalho.

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5 Responses to Japanóia #11 – Paradise Kiss – glamour e drama no descolado mangá de Ai Yazawa

  1. Esse mangá é muito bonito.

    Comprei a primeira edição num Anime Friends de 2008, mas só fui ler com atenção há pouco tempo atrás. Daí comecei a grande “caçada” que é completar essa coleção, mas eu dei sorte de conseguir.

    A sensibilidade que transborda dos diálogos me comove… O começo, principalmente, quando George demonstra tanto interesse pela vida da Yukari. Ai, meu deus, vou chorar hahaha :~

  2. Igor Oliveira disse:

    Curioso, hoje mesmo passei num sebo e me deparei com os 5 volumes de Parakiss por lá, como eu sei que são raridade não perdi tempo e comprei logo por um preço justo rs
    Sempre tive vontade de ler algum trabalho da Yazawa porque acho os traços dela lindos pra caramba, principalmente em parakiss! Gostei do review, me animou ainda mais pra ler :p

    • Roberto disse:

      Que sorte em encontrar por um “preço justo”. No HQ Mix de 2010 eu comprei o 5º e último volume por R$45,00.

      Muito abuso cara! Mas em todo caso, obrigado pelo feedback e boa leitura, você não vai se decepcionar! :)

  3. […] 13 anos era lançado o primeiro volume de Nana, mangá da já na época famosa e talentosa artista Ai Yazawa. A trama conta a histórias duas garotas chamadas Nana que se encontram por acaso em um trem rumo […]

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