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Japanóia #1 – Uzumaki – A Espiral de Terror, do mestre Junji Ito.

em abril 5 | em HQs | por | com 6 Comments

Kurouzu-cho é uma pacata cidade no interior do Japão, inofensiva e idílica, até que seus habitantes tem a rotina abalada quando misteriosas assombrações envolvendo formas espirais. Essa é a premissa do fascinante mangá “Uzumaki”.

Lançada originalmente em 1998 na conceituada Big Comic Spirits, que em suas páginas teve clássicos de crítica e público como “Crying Freeman” e “20th Century Boys”, a série foi o único trabalho do manga-ka Junji Ito a ser publicado no Brasil, pela editora Conrad em 2006,  sob o título de “Uzumaki: a Espiral do Terror”.

Foi justamente nesta publicação que eu fui apresentado ao trabalho de Ito, considerado por muitos uns dos “mestres do terror” nipônico ao lado de personalidades como Hideshi Hino e Kazuo Umezu, sua maior influência.

Na trama, o leitor acompanha os misteriosos eventos através dos olhos e pensamentos da estudante colegial Goshima Kirie, que subitamente vê seus familiares e colegas desenvolverem estranhas fixações por espirais.

Junji Ito trabalha sua trama com elementos crípticos, dando mais ênfase nos acontecimentos e as reações dos envolvidos do que necessariamente explicando fenômenos, deixando assim o leitor tão sem pistas quanto os próprios personagens.

Sua arte é densa e realça o clima de desespero e estranheza que a série busca transmitir, sombras pesadas e closes nos rostos assustados e histéricos, embora seja um mangá, aqui o traço é limpo e fluído, sem cair em convenções comuns do gênero, como olhos enormes ou corpos com anatomia desproporcional.

Inspirações para fomentar o “fenômeno” das espirais assombradas é o que não faltam na cabeça do autor, variando entre o cômico, o surreal e o grotesco, observamos cabelos cacheados possuídos, seres humanos que se transformam em caracóis gigantes, cicatrizes que viram espirais enormes e outras monstruosidades que o leitor precisa conferir.

Vale a pena mencionar que nada é solto na história, as espirais aparecem como um reflexo das obsessões e fobias dos personagens, o que costuma resultar em desfechos que surpreendem e assustam o leitor.

 

É justamente por essa variedade de abordagens realizadas pelo autor que nasce a minha principal crítica sobre a história: a inconsistência no tom pode confundir um pouco o leitor. Se o primeiro volume possui uma profundidade psicológica inquietante, o mesmo não pode ser dito dos outros dois, a narrativa focada no psicológico e paranormal  aos poucos vai migrando para o grotesco e visceral, com cenas mais explícitas e inquietantes, mas nada que vá impactar ou estragar a leitura.

Para um fã de terror bem versado é impossível ler “Uzumaki” sem lembrar-se de grandes nomes do meio que trouxeram influencias visíveis para a história, desde autores clássicos como H.P. Lovecraft, Edgar Allan Poe e até mesmo cineastas como David Cronenberg e seu body horror.

 

Mesmo na época sendo um lançamento de significância no Brasil, Junji ito (e por extensão suas obras) nunca tiveram a relevância merecida pelo público e a crítica. Ainda assim, Uzumaki é considerado cult e uma dos melhores mangás publicados em nosso país, que carece de obras do gênero nos quadrinhos.

Hoje em dia é possível encontrar cópias em bom estado das três edições em eventos de quadrinhos/mangá ou até mesmo o box, contendo a coleção completa. Uzumaki foi adaptado para o cinema, e que embora eu nunca tenha visto, nosso querido editor Raphael Fernandes disse que o trailer consegue ser melhor que o filme inteiro, então veja por sua própria conta e risco.

Não perca tempo! Uzumaki é uma das melhores obras do meio já publicadas no Brasil, os fãs de horror ou aqueles que buscam melhorar seu repertório de mangás devem correr atrás imediatamente!

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6 Responses to Japanóia #1 – Uzumaki – A Espiral de Terror, do mestre Junji Ito.

  1. @gabidogato disse:

    bicho, ja li, o final é uma coisa assim que eu ainda num absorvi. tenho tudo em scan mas sinto falta (no caso dessa serie) do papel.

    ja sacou o vampiro que ri, dele tb?

    • Cara, O Vampiro Que Ri é do Suehiro Maruo (que tem uma coletânea chamada “ero-guro” pela Conrad), ele é animal.

      Mas admito, os finais dos mangás do Jinjo Ito costumam ser “súbitos”, mas ainda assim apoteóticos, de certo modo, lembram os contos do Lovecraft, que costumavam acabar quando o “monstro” se revelava por inteiro. 

  2. Só eu que achei o final meio boca?

  3. […] praticamente desconhecidos em território nacional. Junji Ito (autor de “Gyo” e “Uzumaki“) é raramente lembrado por aqui, Kazuo Umezu é outro mestre do gênero completamente […]

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