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Japanóia #5 – O Impacto de Neon Genesis Evangelion

em maio 21 | em Animes, Cinema | por | com 16 Comments

Nenhuma animação foi tão influente para o mercado japonês como essa. Se hoje entendemos os animes e sua subcultura do jeito que ela é, devemos em grande parte ao diretor conhecido como Hideaki Anno, o cabeça responsável pela produção de “Neon Genesis Evangelion”.

Para entender Evangelion é preciso antes de mais nada compreender como os valores da produção e roteiro estão intimamente intrínsecos a vida pessoal do diretor.

Para quem não sabe, Hideaki Anno é ligado a outro grande nome das animações japonesas Hayao Miyazaki, o cultuado diretor do Studio Ghibli.  Ambos trabalharam juntos em “Nausicaa do Vale do Vento”, onde Miyazaki, enquanto prospectava novos animadores, descobriu o talento de Hideaki após uma entrevista de emprego.

Com o sucesso de Nausicaa, Hideaki e mais alguns colegas de faculdade formariam juntos a GAINAX, considerado hoje um dos estúdios mais renomados em seu meio. Após o lançamento de “Nadia and the Secret of the Blue Water”, Hideaki Anno entrou em um período de depressão que duraria quatro anos.

Agora estamos em 1996 e as coisas no Japão não vão bem, o medo do cada vez mais eminente colapso econômico da bolha assombram diversos setores da indústria nacional, entre elas os estúdios de animação. Desemprego e desilusão são realidades cada vez mais constantes, um clima de niilismo pairava no ar.

Neste mesmo ano, Hideaki Anno agora recuperado de sua depressão volta na direção da nova produção do estúdio, “Neon Genesis Evangelion”, que mudaria de vez o panorama da indústria de animação. É interessante perceber que os quatro anos de convalescência psicológica de Anno influenciaram o roteiro de Evangelion, desde as caracterizações dos personagens passando pela ambientação pós-apocalíptica da série.

Ao contrário de animações de teor mais artístico que Hideaki Anno trabalhou, “Neon Genesis Evangelion” absorvia elementos de produções clássicas de ficção-científica, como “Space Battleship Yamato” (conhecido aqui no Brasil como “Patrulha Estrelar”) e “Mobile Suit Gundam”.

Na trama da animação, a Terra passa por um cataclisma conhecido como “Segundo Impacto” que resulta em mudanças drásticas no ecossistema do planeta e extermina metade da população humana. Em meio ao clima de inquietação e beligerância que se formou após o evento apocalíptico, uma organização conhecida como SEELE ergue a cidade de Tokyo-3 e desenvolve o humanoide robótico gigante “Evangelion”. Com isso a organização se prepara para a invasão de seres misteriosos conhecidos apenas como “Anjos” ou “Angels”.

Essa seria uma premissa até mesmo genérica, não diferente das demais animações envolvendo robôs gigantes e imaginário pós-apocalíptico. O grande charme de “Neon Genesis Evangelion” se encontraria no desenvolvimento de seu protagonista, um garoto de treze anos chamado Shinji Ikari.

Shinji Ikari é uma figura iconoclasta, contrário ao espírito entusiasta dos protagonistas masculinos de animes de ação e aventura. Shinji é o reflexo de uma época, onde as audiências eram capazes de encontrar seus medos e inquietudes. Tímido, inseguro, desistente e, até mesmo, assexuado são adjetivos que caracterizam bem o protagonista da série. Uma pessoa de comportamento passivo e silencioso que abriga em seu pensamento um turbilhão de angústias e ressentimentos. É um personagem universal, reflexo não apenas da insegurança do futuro de uma geração de japoneses, mas também das experiências psicológicas do próprio autor. Um arquétipo onde otakus e outros tipos de ineptos sociais podiam encontrar seu reflexo.

A história de “Neon Genesis Evangelion” acaba então tomando rumos sombrios e densamente psicológicos, refletindo o zeitgest de uma época. Uma animação onde adolescentes melancólicos flertavam com o sexo e a morte em batalhas sangrentas protagonizadas por robôs em paisagens desoladas.

Além de questões que esbarravam no espaço sociopolítico do Japão e da sexualidade adolescente, outro aspecto que marcou o roteiro foram as inspirações do misticismo judaico-cristão e da psicanálise, que Hideaki Anno buscou trazer para a trama. Os “anjos” da trama, um dos principais antagonistas de Evangelion, são referidos por nomes do Antigo Testamento. Outras referências religiosas incluem a relação entre Adão, Eva e Lilith e até mesmo uma alegoria aos Três Reis Magos e o Sephiroth da Cabala.

Hideaki Anno e sua equipe também buscaram inspirações na literatura, principalmente no livro “O Fim da Infância” do inglês Arthur C. Clarke (publicado no Brasil pela Editora Aleph) e na extensa bibliografia de Philip K. Dick. Outras referências literárias incluem “O Desespero Humano” do poeta dinamarquês Kierkegaard e conceitos explorados por filósofos como Hegel e Schopenhauer (principalmente o “Dilema do Porco Espinho”) e psicanalistas como Lacan e Freud.

A sofisticação do roteiro atribuiu a trama um ar mais maduro, Anno intercalava episódios de ação com situações de puro monólogo cerebral ou drama familiar. Foi questão de tempo até que a série chamasse a atenção de outros perfis de público além do otaku convencional, culminando no sucesso comercial que persiste até hoje.

“Neon Genesis Evangelion” chamou a atenção de críticos e prospectores comerciais, apresentado ao público uma produção com valores até então nunca vistos antes na animação japonesa. Transformando-se em um fenômeno cultural que saiu do seu país de origem e se estendeu pelo mundo todo.

Com licenciamento de imagem para produtos e animações que vão de spin-offs a remakes da obra original, até o ano de 2011, a franquia arrecadou mais de 30 bilhões de Yens. Provando que Evangelion é mais do que uma série de sucesso, mas uma forma legitima de capital financeiro e cultural, tornando-se um modelo que inspirou diversas animações que sucederam na indústria de animação japonesa.

Aqui no Brasil, “Neon Genesis Evangelion” é uma das séries de maior popularidade, ao lado de nomes clássicos como “Cavaleiros dos Zodíaco” e “Yu Yu Hakusho”, compartilhando de uma extensa comunidade de fãs. A série foi dublada pelo estúdio Mastersound, que trabalhou com animações japonesas como “Pokemon”, “Saber Marionette J” e “Patlabor”. Foi exibida pela primeira vez no extinto canal pago Locomotion, que na época se especializou em animações alternativas e/ou adultas.

A adaptação da série para o mangá, da autoria de Yoshiyuki Sadamoto, foi lançada pela primeira vez em 2001 pela Conrad Editora, que cancelou o título após vários problemas editoriais. Em 2011, a JBC retomou a publicação do título assumindo dois frontes: dando continuidade a publicação original e também relançando os volumes da série deste o início.

O remake da série original, conhecido como “Rebuild of Evangelion” com remasterização gráfica, nova trilha sonora e até mesmo personagens inéditos é distribuído no Brasil pela Paris Filmes e vale a pena investir, principalmente pela qualidade da animação em Blu-ray.

Considero “Neon Genesis Evangelion” uma obra obrigatória e essencial no acervo de qualquer fã de anime ou apreciador da cultura pop. Não apenas por uma qualidade de roteiro que dificilmente será superada, mas também pelo fenômeno cultural que a série propagou, um verdadeiro segundo impacto nas animações japonesas.

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