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Fantastic #3: Uma introdução às raízes da ficção científica

em abril 25 | em Opinião | por | com 7 Comments

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Vintage é pouco, rapá.

Quando se fala em ficção científica, não é difícil imaginar elementos relacionados ao gênero. Aliens, experiências e transmutações, universos distópicos e a humanidade indo para a fronteira final são apenas alguns dos temas que fazem parte do âmbito da FC, seja ela nacional ou mundial. Mas apesar de ser um gênero que evoca um monte de imagens mentais bem claras, defini-lo de maneira clara pode ser um desafio. Existem, resumidamente, três motivos para isso:

  • O gênero é muito abrangente. Além disso, suas delimitações não são estáticas; como dizem alguns pesquisadores, as paredes que cercam o universo da ficção científica são facilmente transponíveis, praticamente gelatinosas. Existe muita troca entre a FC e seus gêneros irmãos, a fantasia e o horror; além disso, os subgêneros da ficção científica são inúmeros – e não param de aparecer novos deles.
  • Há quem diga que a ficção científica, assim como a fantasia, não é exatamente um gênero, mas um modo de se contar uma narrativa. Seja na forma de introduzir o leitor ao contexto ou na presença desses elementos reconhecíveis,  uma história pode ser ficção científica sem seguir um caminho óbvio ou muito consolidado por outros autores da área. Um exemplo bastante contemporâneo disso é Ready Player One”, de Ernest Cline, que se passa em dois mundos: uma Terra que vive uma distopia causada pela falta de combustíveis fósseis e um universo desafiador e empolgante que só existe em um simulador de alta definição. Ainda que Cline faça referência a um mundo destruído e caótico, os caminhos que percorre são inovadores, dando uma releitura a clássicos da ficção científica.
  • O problema dessa definição tá lá nas raízes do gênero. E é esse o foco da Fantastic da vez. :) Pegue carona nessa cauda de cometa e vem com a gente.

Afinal, quando foi que a ficção científica nasceu? Esse é assunto pra discussão no mundo acadêmico e no bar – aliás, haja bar pra discutir isso –, mas a teoria mais aceita é que esse tipo literário foi se desenvolvendo lentamente, ao longo dos séculos, pipocando seus elementos conforme o desenvolvimento do pensamento humano. Os primeiros traços de ficção científica já estariam presentes no imaginário dos gregos, tanto por conta de algumas temáticas sobre os cursos da humanidade (que seriam recicladas em inúmeras obras de FC) quanto pelo uso de tecnologia como suporte da narrativa. Um exemplo disso eram as estruturas que sustentavam os deuses mitológicos em peças trágicas, o tal Deus Ex Machina: por trás das divindades, havia uma construção feita pelo homem.

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Referências à tecnologia e à ciência nas narrativas foram ficando mais frequentes a partir daí. No século 2, a obra Uma História Verdadeira”, de Luciano de Samósata, é uma obra com tom de documento oficial. Fazendo referências a viagens para o espaço e criaturas alienígenas, Luciano reconta passagens da mitologia grega como se tivessem realmente acontecido. Não é à toa que o texto, à época, foi considerado polêmico – e ficou muito popular por causa disso.

Nessa linha do tempo da FC, o Renascentismo teve também grande importância. (Aliás, nota mental: FC e SF são uma coisa, sci-fi é outra. O segundo termo é pejorativo entre os estudiosos do tema, por fazer referência a obras pseudo-FC de baixa qualidade). Leonardo da Vinci, por exemplo, pode ser facilmente considerado um bisavô de conceitos da ficção científica, com seus rascunhos de engenhocas voadoras.  É um fato: nos momentos da História em que o pensamento racional ganha espaço e relevância popular, os elementos da ficção científica se manifestam na arte.

Muitas obras contêm esses elementos. Existe uma discussão de que Shakespeare, inclusive, teria tido um pé na proto ficção científica com a sua última peça, “A Tempestade”. Shakespeare, aliás, teve um monte de contribuições para o pensamento fantástico. Mas isso é assunto para uma outra coluna. ;-)

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Frankenstein em 1910; patrocinado por Thomas Edison, um dos cientistas “celebridade” dos velhos tempos

Mas se você, caro leitor, achar essa linha do tempo muito discutível, fique à vontade. A gente disse que ficção científica não é brinquedo, não. ;-) Tanto que muitos estudiosos preferem dizer que a pedra fundamental da ficção científica não está nos gregos, em Da Vinci e muito menos em Shakespeare: o grande nome do gênero teria sido uma mulher. Mais precisamente, Mary Shelley, a autora de Frankenstein”.

Shelley, pra dizer o mínimo, era uma figura muito interessante. Até a publicação de sua obra prima, em 1818, não se via como uma escritora, apesar de conviver com vários autores. Seu marido, Percy Shelley, era um poeta de relativo renome na Inglaterra e amigo pessoal de Lord Byron, um grande poeta gótico. Foi em uma viagem com Byron, Percy e outros amigos do casal que Frankenstein nasceu: os amigos se desafiaram a escrever um conto curto de horror durante uma nevasca. Apenas Mary terminou sua história, que passou por várias edições até ser publicada.

Em 1831, Shelley reescreveu boa parte do livro, em parte por causa das duras críticas que recebeu depois do lançamento. Ainda assim, a raiz do da ficção científica já estava lá, na primeira versão: Victor Frankenstein, o cientista que recria vida a partir de pedaços de pessoas mortas, abandona os estudos de práticas de alquimia para procurar a resposta da vida na ciência e na tecnologia da época. Esse é um retrato bastante simbólico desses tempos, quando que a ruptura com o misticismo e  a religião  era bastante discutida.

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A partir de Frankenstein, a literatura europeia definitivamente colocou o pé no acelerador rumo à ficção científica moderna, a começar pelo francês Júlio Verne. Pegando a onda do subgênero Voyage Extraordinaire, consolidado por Thomas More (“Utopia”) e Jonathan Swift (“As Viagens de Gulliver”), Verne juntou dois pontos que permeiam toda a história da ficção científica: o DNA explorador do homem e o uso da tecnologia para levá-lo ao desconhecido. A coisa vai mudando de figura e tomando forma quando o inglês H. G. Wells, um dos nomes mais importantes da ficção científica clássica, faz uma adaptação própria das histórias sobre viagens extraordinárias. Enquanto Verne não se preocupava em dar explicações técnicas sobre as máquinas que existiam em suas obras, Wells era particularmente obcecado pelos detalhes tecnológicos, ao ponto de transformar uma máquina do tempo em um objeto menos fantasioso e muito mais, por assim dizer, possível.

Wells foi o primeiro a perceber que as histórias científicas precisavam de um nome mais apropriado. “Viagem Extraordinária” não definia muito bem o que ele queria com suas obras; “scientifiction” lhe pareceu um termo muito mais apropriado. O conceito colou até o início do século XX, com o surgimento de revistas pulp que publicavam contos sobre a ciência, o universo e tudo mais; mas quem realmente inventou a expressão foi Hugo Gernsback (o mesmo que deu origem aos prêmios Hugo), autor de ficção científica e excêntrico por excelência.

 

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Esse cara.

A melhor parte é a história por trás do nome “science fiction”. Gernsback era fã de Wells e, como foi dito, adorava a expressão scientifiction, a ponto de usá-la sempre nos editoriais de suas revistas de contos. O problema é que o que Gernsback tinha de entusiasta da ficção científica, tinha em dobro de mau pagador – os escritores que tinham seus contos publicados nunca viam a cor do dinheiro. Inúmeros processos criminais forçaram Gernsback a vender sua primeira revista, Amazing Stories, e abrir uma nova publicação. Com isso, precisou inventar um novo termo para definir as obras que queria publicar, e cunhou o nome “science fiction” em 1929.

A partir daí, o gênero – se é que podemos chamá-lo assim – começou a caminhar com suas próprias pernas. Ainda que muita gente criticasse o termo “ficção científica”, o nome colou o suficiente para sobreviver a quase um século. Ainda que hoje tenhamos novas formas de definir essa área do fantástico, uma coisa é certa: foi preciso muito esforço coletivo para chegar aonde estamos hoje. :)

Até a próxima, pessoal!

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  • Julio Matos

    Excelente post. Parabéns a Autora! :)

    • Cláudia Fusco

      Valeu, Julio! ;)

  • http://www.facebook.com/cesar.silva.566 Cesar Silva

    Lembrando que Julio Verne era francês. Sua contribuição à fc é valiosa, mas sua literatura não faz parte da literatura inglesa, como sugere o texto.

    • Cláudia Fusco

      Opa, Cesar, é verdade. Vamos corrigir a ambiguidade do texto, obrigada por apontá-la. ;-) Aliás, esse é um ponto a se notar: as visões contrárias de mundo de franceses e ingleses também se manifestava nesses textos da FC clássica. Enquanto Verne tinha um grande romantismo para falar de suas máquinas voadoras, Wells era prático, pragmático, tecnófilo. É muito legal ver como isso se desdobra nos caminhos que a FC vai traçando nesses países. :) Valeu!

  • https://twitter.com/#!/beta_blood Roberta PunPun Girl

    Cara, estou amando essa sua coluna. É muito divertida de se ler por você escrever como se estivesse numa conversa informal e também esclarecedora em muitos pontos.

    • Cláudia Fusco

      Valeu!!! :)

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