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Ei Polícia, vinagre é uma delícia!

em junho 14 | em Opinião | por | com 5 Comments

Autor: Horácio Corral

Autor: Horácio Corral

Bom, eu preciso compartilhar algumas impressões sobre a questão “vinagre”. Por mais absurdo que pareça, um pano umedecido com vinagre é capaz de amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo. Uma das principais reclamações dos manifestantes antes do protesto se desenvolver para uma batalha campal foi justamente a apreensão da polícia em busca de armas, entorpecentes e vinagre. Embora os dois primeiros sejam compreensíveis, acredito que a postura da polícia é um tanto autocrática. Mesmo que exista a questão da autodefesa preemptiva, isso é isentar o cidadão do direito de se manter integro perante uma agressão. Um cidadão incapaz disso é um cidadão refém.

Ainda assim, a truculência da Polícia Militar é apenas a ponta do iceberg que começa pela omissão e covardia de figuras públicas como Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, passando pela falta de treinamento e condicionamento psicológico da polícia, necessários para lidar com essa situação. Essa Polícia Militar que agrediu, jogou bombas e distribuiu balas de borracha contra jornalistas é a mesma que protesta por melhores condições de vida, que teme pela vida de suas famílias perante o tráfico, que é usada como bucha de canhão contra narcotraficantes e milícias em favelas.

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A polícia, embora um agente de coerção do Estado, é tão vítima quanto nós. Pode soar um discurso marxista, mas o que nós observamos na Avenida Paulista e arredores foi um confronto entre subordinados. Era o povo combatendo a si mesmo em um exemplo de manipulação política e social. Por mais simbólico que seja o ato, ele falhou quando a Polícia Militar marchou sem aviso contra a população. Nesse exato momento, Haddad estava voltando de uma viagem a Paris, paga pelas custas do nosso bolso.

Essa questão de quem é o vilão da história é meio óbvia. Da mesma forma que o Estado autoriza a da polícia contra o cidadão comum, o meio empresarial carece de fator humano. O editorial dessa quinta-feira da Folha de São Paulo foi o maior exemplo disso. Defendeu essa mesma postura agressiva, taxando os manifestantes de criminosos e exigindo o tratamento atribuído para os mesmos. No final da história, sete jornalistas da Folha de São Paulo foram agredidos. Inclusive uma mulher foi alvejada por uma bala de borracha no olho. Enquanto se discute o impacto do aumento no benefício CLT, a Folha de São Paulo tem protagonizado um imenso corte de funcionários. Uma triste ironia.

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A exigência por um “protesto pacífico” parte de duas premissas. O estado acostumou com a passividade do cidadão brasileiro após a instauração da nova democracia. Acostumado com o conformismo e submissão, é inevitável a surpresa do público perante esse tipo de manifestação. A exigência também é – por parte de uma camada da população – um reflexo dos maneirismos higienistas da sociedade paulistana.  Onde a Avenida Paulista – coração financeiro e cultural da cidade – é um cartão postal antisséptico, isento de bactérias. Um construto social invulnerável ao clima político da cidade. Ledo engano.

Mediante as trocas de acusações na mídia sobre quem foi o estopim das agressões, existe uma teoria no direito sobre a “força de cooptativa de coerção por parte do estado” onde o mesmo pode empregar a truculência com a desculpa jurídica de manter a ordem. Os manifestantes então, só vem uma forma de revidar a altura. Este tipo de atitude é uma espécie de comunicação.

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O vandalismo tão criticado e empregado como prática para desqualificar as ações dos manifestantes é outro ponto interessante. O ônibus representa em muito o status quo do cidadão brasileiro. Sucateado, incômodo e muitas vezes disfuncional para aquilo que se paga. Sua destruição é um ato simbólico. O caos faz parte da psicologia de massas. O brasileiro médio, desacostumado com dicotomia entre o público e o privado, enaltece o direito individual essas horas. Falando que as pessoas, empreendimentos e instituições ali presentes – no espaço público – são vítimas injustiçadas. Outro engano, ainda mais quando encaramos a ótica humanista desse debate. O mais importante é a integridade de vitrines ou as pessoas feridas? Faz parte da reação para uma sociedade que está se reacostumando com esse tipo de coisa.  Vale lembrar que antes do vandalismo acontecer, existiu a rotineira postura de descaso por parte do governo, que permitiu que as coisas escalassem a esse ponto. Quando falamos em violência, parece que esquecemos de suas manifestações menos óbvias. O abandono de nossos líderes, os gastos orbitantes, a corrupção, o ressarcimento de nossos direitos fundamentais. Manifestantes, cidadãos pegos no fogo cruzado e até mesmo policiais, somos todos vítimas desses processos.

“concerning non-violence: It is criminal to teach man not to defend himself when he is the constant victim of brutal attacks.” – Malcolm X

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