Entrevista exclusiva com o Otário do Canal do Otário
Na semana passada, falamos sobre o Canal do Otário, que é uma série de vídeos no Youtube com denúncias pesadas contra produtos e empresas. Para se ter uma ideia da repercussão, a Claro ficou tão ofendida que até conseguiu tirar um vídeo dele do ar, que mostrava os problemas do 3G da empresa.
Curiosa com o teor dos vídeos, sua produção e alcance, a equipe do Contraversão conseguiu uma entrevista com o próprio Otário via e-mail. Conheça um pouco mais sobre o própria, suas motivações e como faz seus vídeos:
Quem faz estes vídeos do Canal do Otário?
Otário – Existe apenas uma pessoa que faz os vídeos: eu. Não há equipe, roteiristas, absolutamente nada, somente eu… Sou o cameraman, ator, roteirista, iluminador, “twiteiro”, “facebookeiro” rs… Mas nunca trabalhei em nenhuma destas funções ou área, por isso, tudo é tão amador.
Mas como o Canal do Otário cresceu muito nas últimas semanas, algumas pessoas se sensibilizaram e começaram oferecer ajuda, de forma voluntária e anônima: fotos, dicas ou sugestões de vídeos, ou ainda pequenos trechos de vídeo editado, mas continuo fazendo tudo. Por isto que os vídeos demoram tanto para sair (se bem que eu gostaria de me multiplicar por 10 ou ter uma equipe de verdade!).
Para se ter uma ideia, um mês antes de realizar o primeiro vídeo, nem sabia o nome ou o que seria de fato um programa de edição de vídeos (como por exemplo, o After Effects). Aprendi o básico em uma semana e depois já estava fazendo os vídeos. Basta assistir a tutoriais no próprio Youtube. É uma excelente fonte de conhecimento! Se observar bem, existe uma evolução considerável entre o primeiro vídeo e o último. Com o tempo, eu vou aprendendo.
Como foi o processo de criação do personagem Otário?
Otário – Tudo começou em uma viagem de final de ano, onde acabei comprando um pacote de biscoitos da Bauducco (Cookies Original – igual àquele que eu mostro no vídeo).
Estava em uma pequena mercearia, nunca havia consumido este biscoito até então. Olhei a embalagem, parecia bom e comprei. A quilômetros de distância da civilização, com um pouco de fome, resolvi abrir e me deparei com aquela cena bizarra! O biscoito da embalagem não tinha absolutamente nada a ver com o biscoito real! Já era tarde demais para eu regressar à mercearia e devolver o produto… Então prometi para mim mesmo que começaria uma verdadeira batalha contra a propaganda enganosa e que este tipo enganação nunca mais aconteceria.
O problema seria “como fazer isto”?! Pensei: Postando vídeos no Youtube. Mas, até aí, está cheio de vídeos com pessoas reclamando sobre alguma coisa e/ou produto, e tudo é feito de forma bastante amadora e extremamente “chata”. E sabia que, para alcançar o maior número possível de pessoas, teria que fazer diferente de tudo, algo realmente inovador.
Queria algo que prendesse a atenção não só pela argumentação, mas também pelas imagens. Algo que tivesse uma qualidade profissional. Pensei em fazer vídeos onde eu mesmo falaria (mas eu não sou um ator). Obviamente, por temer represálias, pensei em utilizar uma máscara (cogitei em utilizar vários tipos de máscaras: V for Vendetta, Saw, Charada, Jason, máscaras de carnaval, nariz de palhaço, etc). Mas tudo ficou horrível, além disto, na medida em que o personagem adquirisse fama, acabaria tendo problemas com direitos autorais. Decidi então que tinha que criar uma máscara nova, um personagem novo. Foi então que surgiu a ideia do nome do personagem: Otário. É basicamente uma crítica à forma como o consumidor é visto por quem faz propaganda enganosa. E daí o nome do canal: “Canal do Otário”.
Mas ainda faltava uma máscara. Pensei em utilizar efeitos 3D e inserir virtualmente uma cabeça, mas não sabia como fazer isto. Comecei a pesquisar e vi que eu teria muito trabalho. Tentei criar uma máscara de papel machê (estilo Full Metal Jacket) e foi aí que surgiu a ideia de colocar um saco de papel na cabeça, inserir os olhos, bocas e nariz posteriormente. Não era uma máscara 3D, mas seria mais simples.
Até então eu nunca havia utilizado um software de edição de vídeos e comecei a fazer pesquisas frenéticas na internet. Aprendi o básico e, uma semana, depois já estava com o primeiro vídeo pronto. O processo inteiro, desde a abertura do pacote de biscoito até a postagem do primeiro vídeo, levou cerca de um mês.
Quais as suas motivações?
Otário – Cansei de ser feito de Otário por filhos da puta que fazem propaganda enganosa! Então decidi fazer alguma coisa para mudar isso e parece que estou conseguindo.
Coincidência ou não, várias coisas aconteceram após o surgimento do Canal do Otário. A Anatel começou a “mostrar serviço” (apesar de ainda ser muito cedo para bater palmas para eles), denunciando que a TIM derrubava propositalmente as ligações (sendo que meu vídeo já falava isso dois meses antes). A Claro tratou de me censurar (devido às denuncias que fiz sobre a internet 3GMAX que eles vendem) e agora eles estão oferecendo o serviço de graça para vários consumidores (a título de degustação rsrs)! Até o BIG MAC baixou de preço!!! Kkkk
É uma grande e planejada ação ou é feito de maneira aleatória?
Otário – Essas teorias da conspiração me matam!
O personagem usa terno e não tem rosto. O nome completo dele é Otário A. Anonymous. Possui alguma ligação com o grupo Anonymous?
Otário – Tem rosto sim, olhos e bocas grandes e nariz vermelho, rsrs. E o nome completo é Otário Anônimo Anonymous. Na verdade, não existe um grupo ou partido político ou algo do gênero chamado de Anonymous. O que existem são ideias e pessoas cansadas de tanta enganação. Apenas me identifico com essas ideias e quero tentar mostrar para as pessoas que, quem tem o poder de mudar as coisas não é o governo, não é um órgão regulador, não é um político, mas sim as próprias pessoas.
Mas e o material para fazer os vídeos? Você usou o que tinha, teve que comprar algo?
Otário – Já possuía uma pequena máquina fotográfica que também possui a função de filmar, tive que comprar alguns abajures para melhorar a iluminação e alguns metros de pano azul (para a tela de Chroma Key), além dos programas de edição de vídeo.
Quanto os produtos criticados, você mesmo tiras as fotos ou pega da web?
Otário – A única coisa que pego da web são ideias. Sempre checo tudo para ver se a reclamação procede de fato. Mesmo quando alguém envia uma foto de um produto, eu compro o produto e tiro várias fotos novamente. Pelo menos assim posso me garantir contra possíveis processos.
Quais os critérios que usa para escolher os seus alvos?
Otário – Geralmente procuro informações em sites de reclamação ou órgãos reguladores como Reclame Aqui, Procon, Proteste, Idec, Anatel, Bacen… Mas o foco são produtos de alcance nacional ou internacional, empresas líderes de mercado. Assim, creio que fica mais fácil para as pessoas se identificarem com o produto e assimilar melhor as ideias! Só bato em gente grande!
Os dados que utiliza em seus vídeos são difíceis de conseguir? Tenho a impressão de que são coisas que estão na nossa cara e não vemos…
Otário – Não. A maioria absoluta das informações está nos sites das próprias empresas, sites do governo, agências reguladoras… Com exceção de informações como conversas com empregados das instituições ou denúncias anônimas (as quais sempre checo), tudo está ao alcance do mouse de qualquer pessoa. Basta procurar.
Sempre tento estimular as pessoas a checar as informações que passo, colocando no descritivo dos vídeos uma série de fontes e links úteis para serem conferidos. O que quero é que as pessoas acordem para a realidade!
Se você pudesse se encaixar em alguns dos “ismos” da política, qual (ou quais) seria(m)?
Otário – Sou apenas uma pessoa cansada de ser enganada! Se existe algum termo político para isto, não sei qual seria, mesmo porque política e enganação são palavras muito semelhantes.
Pensa em fazer algo nesta linha com políticos ou o foco é só em produtos / serviços?
Otário – O foco é propaganda enganosa, seja ela feita por empresa, político ou qualquer pessoa. Até o momento, foquei mais em empresas, mas sempre rola alguma crítica ao governo ou órgão regulador. No futuro, as críticas a políticos poderão ser mais direcionadas. Meu maior receio é que empresas mandam processar, já políticos mandam matar.
O que as empresas já fizeram com você?
Otário – Até o momento, nenhuma empresa entrou em contato comigo. Sempre divulgo meu e-mail, Twitter e Facebook. Então, a alegação de que não é possível falar comigo, pois não sabem quem sou seria uma desculpa muito esfarrapada. Creio que o grande problema é que muitas dessas empresas me veem como um grande inimigo, e não o contrário. Boa parte dessas empresas não enxerga o consumidor como um amigo, mas sim como um inimigo.
Quantos vídeos estão para ser feitos? Será que podemos ter dicas de quem serão suas próximas vítimas?
Otário – Faço um vídeo sempre que tenho alguma ideia ou roteiro interessante, não existe uma frequência específica. Às vezes, pode variar de uma semana até pouco mais de um mês. Infelizmente (ou felizmente), como o Canal do Otário cresceu bastante, não posso mais dar pistas sobre os próximos vídeos, pois isto poderia atrapalhar as pesquisas de campo (que eu mesmo faço). Mas, aguardem, pois o próximo vídeo eu espero fazer muito barulho!
Enquanto o novo vídeo não sai, acompanhem as atualizações no twitter.com/CanalDoOtario ou na minha página do facebook.com/CanalDoOtario, ou no próprio Canal do Otário no Youtube!
Deixe um recado pros otários!
Otário – A minha ideia é chocar mesmo! Dar um verdadeiro soco na cara, não só das empresas, mas principalmente da sociedade, que aceita ser enganada e não faz porra nenhuma para melhorar!
Aliás, uma excelente trilha sonora para quem gosta de assistir ao Canal do Otário, ou de ler alguns comentários que posto no Youtube, Facebook ou Twitter é a música O primeiro tapa é meu, de Rogério Skylab.
E você otário que leu tudo isso… o que achou da entrevista? Deixe suas impressões nos nossos comentários!

























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