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Quando o real e a ficção se cruzam: Batman, a trilogia de Christopher Nolan e o mito do elefante

em julho 27 | em Cinema, HQs, Opinião | por | com 2 Comments

A tragédia de Colombine foi mais do que um incidente, foi um marco folclórico. Quando noticiários de todo o país exibiram imagens de Eric Harris e Dylan Klebold capturadas via as câmeras de segurança da escola, o Ocidente assistiu com um misto de ingenuidade e horror dois adolescentes protagonizarem uma matança indiscriminada de colegas, professores e funcionários da escola. Enquanto recobrávamos do trauma, o pânico generalizado que se instaurou, legiões de sociólogos, psicólogos e pedagogos  foram aos telenoticiários de todo mundo dissertar sobre os prováveis culpados do incidente.

Um pouco da ingenuidade ocidental morreu no episódio de Columbine. Porém, a incerteza em apontar culpado levou aos bodes expiatórios de sempre. Onde o acesso a arma é um direito constitucional edificado, observamos a culpa ser delegada aos até então “elos fracos” da indústria de entretenimento: jogos de videogame, quadrinhos, filmes e até mesmo músicos e bandas. Era um tanto óbvio que uma sociedade recém chocada não iria dispor dos meios necessários para exercer a autocrítica que a situação exigia, em tempos de luto existe união, outro erro.

Em 28 de Maio de 1999, no mesmo ano do massacre, o cantor Marilyn Manson publicaria na revista Rolling Stone o ensaio Columbine: Whose Fault Is It?”, onde dissertaria sobre as hipocrisias e facilitações da sociedade americana para este tipo de episódio. Entre tantas frases que expunham a ferida de uma sociedade que banaliza a violência, o que mais marcou foi: “Em vez de ensinar uma criança o que é moral e imoral, certo e errado, temos em primeiro lugar estabelecer quais são as leis que nos governam. Você sempre pode escapar do inferno por não acreditar nele, mas você não pode escapar da morte e você não pode escapar da prisão”.

Negação é uma ferramenta poderosa, quando somada à noção de infalibilidade da própria crença, a negação ganha uma projeção ainda mais imponente. Ela é pivô nos discurso de instituições religiosas, políticas e midiáticas. A negação transforma a violência em um agente anômalo na sociedade ocidental. É como se ela não existisse no organismo “américa”, como um vírus ou bactéria, um elemento nocivo. Então a violência é condenada no tom hipócrita acusado no ensaio de Marilyn Manson, apenas para ser repetida e então perpetuada. Seriamos ingênuos em dizer que não existe violência, o ser humano é propenso a tais atos. Violência não é apenas uma apelação para “exploitation” e cantores polêmicos e controversos, violência é um recurso narrativo importante e poderoso e por isso não devemos negá-la ou vilificar e muito menos banalizar sua presença na cultura ocidental. O que pastores, policiais, parentes e políticos esquecem é que a noção de violência é abrangente e muitas vezes silenciosa. Existe violência na omissão, cumplicidade, conformismo e ostracismo. Fatores que auxiliam episódios como de James Holmes e Eric Harris, episódios onde a autocrítica é incômoda para o status quo.

Em 2003 estrearia no circuito alternativo um filme chamado “Elefante“, escrito e dirigido por Gus Van Sant. Fortemente influenciado pela tragédia de Columbine, o roteiro do filme narrava os dias finais de dois adolescentes que planejavam abrir fogo contra seus colegas de colégio. A premissa do filme – obviamente – repercutiu, sendo aclamado pela crítica, faturou um Palm D’or no Festival de Cannes de 2003. A escolha do nome do filme de Van Sant é conveniente com a dissertação de Manson. O nome vem de uma antiga parábola indiana, sobre um grupo de cegos que tateia um elefante sobre o que é e como se sentem, uma alegoria a proporção e falta de explicação que esses episódios costumam gerar dentro da sociedade americana.

Outro episódio sensível ao assunto é a história “Shoot” que deveria ser publicada na edição #141 de “Hellblazer”. Com o roteiro assinado por Warren Ellis, a história narrava a opinião do mago inglês John Constantine após ele presenciar um tiroteio em colégio similar ao episódio de Colombine. Mesmo com Ellis alegando que a história foi escrita bem antes do episódio de Colombine, com medo de repercussões negativas o editor da Vertigo na época, Paul Levitz resolveu engavetar a edição. Mesmo vazada na internet, a lendária edição só seria publicada 11 anos depois na coletânea “Vertigo Ressurected“.

Ano após ano, episódios dessa natureza brutal e mórbida aconteceram de forma repetida e até mesmo globalizada, com Wellington Menezes no Rio de Janeiro e Anders Breivik na Noruega, até chegarmos a um jovem chamado James Holmes, que protagonizou um surto psicótico semana passada na premiere do filme Batman: The Dark Knight Rises”. Holmes adquiriu pela internet mais de 6.000 balas para duas pistolas Glock e um rifle AR-15 em umas das lojas legalizadas do Colorado. Material bélico que ele utilizou para assassinar 12 vidas e ferir mais de 70.

O universo do Batman de Christopher Nolan vai além da América pós-Colombine, ele flerta com o ocidente pôs 11 de setembro. Arnaldo Jabor em sua coluna pode ter tecido comentários infames sobre a natureza do perturbador Coringa de Heath Ledger, mas ainda assim acertou. Os vilões do Batman de Nolan não são os gênios do crime de outrora, e Gotham City não é aquela cidade gótica e tétrica. O mundo de Nolan soa estranhamente familiar, e real. Os vilões são sim terroristas – não como a imprensa ocidental insiste em titular – agentes do caos, capazes de sitiar Gotham City.  Os filmes de Nolan também são marcados por repercussões na vida real. A overdose de Heath Ledger serviu para abrir os olhos do debate público sobre o abuso de pílulas e entorpecentes. Com o surto de James Holmes questionamos o valor da vida em atentados cada vez mais gratuitos e de caráter niilista.

O aspecto realista da trilogia de Christopher Nolan, ao trazer para Gotham City até movimentos reais, como o “Occupy Wall Street” é reforçada pelo contexto político americano, onde o debate eleitoral presencia uma escalada. Em um chiste estúpido, formadores de opinião dentro dos setores conservadores norte-americanos alegaram uma semelhança entre Bane, o antagonista de The Dark Knight Rises e a Bain Capital, antigo fundo de investimento de Mitt Romney, presidenciável americado pelo partido Republicano. Alegando que as semelhanças são uma manobra eleitoreira de Obama e a “esquerda hollywoodiana”.

Ignorando que o personagem foi criado em 1993, pela dupla criativa Chuck Dixon e Graham Nolan, a Bain Capital tem sido alvo de questionamentos e controvérsias levantadas pela equipe política de Barack Obama e contestadores do Occupy Wall Street. O mais engraçado é que Chuck Dixon, co-criador do personagem é famoso por seu tom político conservador e mesmo assim se manifestou na internet alegando incoerência sobre os fatos.

A resposta dos Democratas viria através da voz do político Christopher Lehane, no Washigton Post: “Sabe-se que filmes podem refletir o sentimento de uma nação. Tanto faz se está escrita é Bain e quem denuncia é a política de Obama ou se está escrito Bane e sendo exposto por Hollywood, as narrativas são similares: um vilão altamente inteligente com interesses estrangeiros e um passado que tentam acobertar, onde ambos tiveram pais poderosos e pilharam espólios da sociedade. ” o circo promovido pela mídia americana apenas piorou a situação ao acusar erroneamente James Holmes de pertecener ao Tea Party, um movimento político de natureza ultra-conservadora.

A amarga ironia existente no atentado em Colorado reforça um dos principais pilares da mitologia do homem morcego. Mesmo que algumas relíquias da Era de Ouro digam o contrário, o mito do Batman é construído sobre um princípio de aversão a armas de fogo. Batman e seus aliados não usam armas, Batman e seus aliados não são homicidas. Os pais do jovem Bruce Wayne foram assassinados sem misericórdia em um beco por Joe Chill um criminoso instável e despreparado. A arma de fogo em Batman é um instrumento do mal, utilizado por pessoas corruptas e entes malignos. Verdade seja dita, Gotham City é um elefante da parábola indiana,e mesmo que muitas das vitórias do homem-morcego tenham caráter pírrico o herói é um símbolo de perseverança em uma cidade comumente dita como possuída por um mal irremediável. Um que assim como o porte de armas, deve ser questionado e combatido.

Não costumo levar em consideração a análise de esquerda que “super-heróis contribuem para a manutenção do status quo sociocultural”. Não podemos levantar esta bandeira em um mundo das dúvidas e incertezas que Christopher Nolan ilustrou em sua trilogia. Justamente por seu estado mítico, Batman é um ser de contradições. Suas motivações altruístas são movidas por um argumento anarquista, onde a descrença na capacidade do estado combater o crime motivou a criação do alter-ego de Bruce Wayne. A ideia de combater o crime com as próprias mãos, usando métodos que embora não letais continuam truculentos ilustra bem noções fascistas de vigilantismo. Este mundo de incertezas e inquietação política é refletido no desfecho de “The Dark Knight” ao tornar o descrente Harvey Dent em um mártir situacional e Batman no “herói que Gotham City merece, mas não aquele que ela precisa agora“.

Com o título traduzido para “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge“, o último capítulo da trilogia de Nolan estreia esta sexta no Brasil. Através da imprensa já acompanhamos as repercussões causadas pelo filme. O leitor (e futuro cinespectador) deve aproveitar a oportunidade não apenas para ver uma ótima peça de entretenimento, mas como o clima social e político de nossa realidade é transportado para a sétima arte na forma de um silencioso, porém inquieto manifesto.

 

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2 Responses to Quando o real e a ficção se cruzam: Batman, a trilogia de Christopher Nolan e o mito do elefante

  1. Marcelim disse:

    Belo texto, de fato!

  2. Muito bom o texto! E aí, do filme em si, gostou?

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